Jurimetria no escritório: o que dá para medir com o que você já tem
Gestão · · 5 min de leitura · Equipe Adv3
Jurimetria é a aplicação de método estatístico a dados jurídicos, e serve para descrever o que já aconteceu, não para prever o resultado de um caso. O escritório médio tem material suficiente para começar: tempo até a primeira decisão, taxa de acordo por tipo de ação e por vara, e o custo de cada caso. As três armadilhas são sempre as mesmas: amostra pequena demais, base que só guarda o que deu certo e norma que mudou no meio do período medido.
Toda reunião de escritório tem uma frase dita com convicção e sem fonte: "nessa vara demora mais", "esse tipo de caso quase sempre acaba em acordo". Jurimetria é o trabalho de conferir se isso é verdade, com os processos que o escritório já tocou, e é bem menos glamouroso do que a palavra sugere.
Jurimetria não é previsão de sentença
A definição operacional é chata de propósito: aplicação de método estatístico a dados do sistema de justiça, para descrever padrões. Descrever é o verbo. Dizer que 70% dos casos parecidos terminaram de certo modo é uma frase sobre o passado, não uma promessa sobre o caso do cliente, e é assim que ela precisa ser dita a ele.
Isso não é preciosismo ético, é limite do método. O caso individual depende de prova, de juízo e de estratégia, e nenhuma base de dados contém essas três coisas. Quem vende jurimetria como probabilidade de vitória está vendendo promessa de resultado, que é outra conversa.
O dado que o escritório já tem
Antes de procurar base externa, vale olhar o que já está no sistema. Um escritório com alguns anos de operação costuma ter, sem saber, a resposta para perguntas que ele responde por intuição.
| Pergunta | Dado necessário | Onde costuma estar |
|---|---|---|
| Quanto tempo até a primeira decisão? | Data de distribuição e data da decisão | Cadastro do processo |
| Onde os casos empacam? | Data do último andamento por caso | Lista de processos parados |
| Quais tipos acabam em acordo? | Tipo de ação e forma de encerramento | Encerramento do caso |
| Quais clientes dão prejuízo? | Horas ou atos por caso contra o honorário | Financeiro e controle de horas |
| Quais casos nunca deveriam ter entrado? | Motivo de encerramento e resultado | Encerramento do caso |
A dificuldade real não é estatística: é que esses campos costumam estar em branco. Sem data de encerramento e sem motivo, não há o que medir, e é por isso que jurimetria começa como controladoria jurídica, conferindo cadastro, antes de virar gráfico.
O que existe de dado público
A Resolução nº 331, de 20 de agosto de 2020, do Conselho Nacional de Justiça instituiu a Base Nacional de Dados do Poder Judiciário, o DataJud, como fonte primária do sistema de estatística do Judiciário. É de lá que saem os números oficiais de acervo, tempo e volume por tribunal.
Serve para comparar o escritório com o contexto: se o tempo médio da vara é X e o do seu caso é muito diferente, isso é uma pergunta, não uma conclusão. O que a base pública não dá é o que aconteceu dentro do seu caso, e é justamente isso que separa o dado do escritório do dado do tribunal.
As três armadilhas que estragam a conta
- Amostra pequena. Doze casos de um tipo não formam padrão. É a distorção mais comum, porque o escritório nichado tem muitos casos de um assunto só e poucos de cada variação.
- Viés de sobrevivência. Se a base só guarda o que virou processo, ela não sabe nada sobre os casos recusados nem sobre os acordos feitos antes de distribuir, que costumam ser os melhores.
- Norma que mudou. Medir cinco anos de um instituto alterado no terceiro ano produz uma média que não descreve nem o antes nem o depois. Antes de agregar, vale checar se a regra é a mesma no período todo.
O que fazer com a resposta
Medida que não muda decisão nenhuma é enfeite. As três decisões que a jurimetria costuma melhorar de verdade no escritório médio:
- Aceitar ou não um tipo de caso, com base no custo e no tempo reais, e não na lembrança do último êxito.
- Provisionar melhor, alimentando o que o artigo sobre provisionamento de processos chama de classificação de risco com histórico em vez de impressão.
- Combinar prazo com o cliente, dizendo quanto tempo aquilo costuma levar naquele juízo, o que reduz a ansiedade que gera cobrança.
E há um efeito colateral bom: escritório que mede passa a alimentar o cadastro, porque o campo em branco começa a doer. É a mesma lógica dos indicadores do escritório, em que a medição melhora o dado que a alimenta.
Perguntas frequentes
Jurimetria serve para prever se vou ganhar a causa?
Não. Ela descreve o que aconteceu em um conjunto de casos passados. Usar isso como probabilidade de vitória de um caso concreto ignora prova, estratégia e juízo, que são justamente o que a base não contém.
Preciso de quantos processos para começar?
Depende da pergunta. Tempo médio até a primeira decisão tolera amostra menor que taxa de êxito por tese. A regra prática é desconfiar de qualquer número tirado de menos de algumas dezenas de casos comparáveis.
Preciso de uma ferramenta específica?
Não para começar. Exportar a lista de processos com data de distribuição, data de encerramento e resultado já responde às primeiras perguntas em uma planilha. Ferramenta dedicada faz sentido quando o volume passa do que a planilha aguenta.
Onde consigo dados dos tribunais?
A base oficial é o DataJud, instituída pela Resolução CNJ nº 331/2020, e os relatórios estatísticos publicados pelo próprio Conselho Nacional de Justiça a partir dela.
Como o Adv3 trata isso
No Adv3 os dados que a jurimetria pede já ficam registrados na operação: data de entrada do caso, andamentos, prazos cumpridos, encerramento e o financeiro ligado ao processo. Dá para exportar tudo e trabalhar fora.
O que o Adv3 não faz: não existe módulo de jurimetria. Não há cálculo estatístico, não há gráfico de tempo médio por vara, não há integração com o DataJud e não há previsão de resultado, que é coisa que ele não pretende ter. O papel dele aqui é ser a fonte confiável do dado, e não o analista.